Um white house memo recente revelou acusações graves contra entidades chinesas por campanhas coordenadas de roubo de tecnologia de inteligência artificial em escala industrial. De acordo com o memorando, empresas baseadas principalmente na China exploram dezenas de milhares de contas proxy para extrair sistematicamente capacidades de modelos americanos de IA. De fato, laboratórios como DeepSeek, Moonshot e MiniMax foram identificados em campanhas de destilação visando copiar modelos da Anthropic. Neste artigo, exploramos como funcionam essas campanhas de destilação, examinamos o plano de ação proposto pela Casa Branca para combater essa exploração e analisamos as implicações diplomáticas dessa acusação para as relações entre Estados Unidos e China.
Casa Branca Acusa China de Campanhas de Roubo em Escala Industrial
Michael Kratsios, diretor do Escritório de Política de Ciência e Tecnologia da Casa Branca, formalizou as acusações em memorando direcionado aos departamentos governamentais. Segundo o documento, as entidades chinesas exploram técnicas de jailbreaking para expor informações proprietárias dos sistemas americanos. Chris McGuire, especialista em segurança tecnológica do Council on Foreign Relations, afirmou que empresas chinesas de IA dependem desses ataques para compensar déficits em poder computacional e reproduzir ilicitamente as capacidades centrais dos modelos americanos.
Em fevereiro, a Anthropic apresentou acusações específicas contra três laboratórios chineses, revelando que essas empresas criaram mais de 24.000 contas fraudulentas para gerar mais de 16 milhões de interações com o modelo Claude. No início de 2025, a OpenAI acusou a DeepSeek de usar saídas de seus modelos GPT para treinar seu próprio modelo, violando os termos de serviço da plataforma.
Kratsios destacou que, embora modelos criados por campanhas de destilação clandestinas não igualem o desempenho dos originais, eles beneficiam grupos estrangeiros devido ao custo significativamente menor. Empresas americanas manifestam preocupação com riscos à segurança nacional, pois modelos destilados carecem de salvaguardas que impedem o desenvolvimento de armas biológicas ou ataques cibernéticos maliciosos.
Como Funciona a Destilação de Modelos de IA
A destilação de modelos de IA permite a sistemas menores replicarem o comportamento de modelos maiores a uma fração do custo computacional. O conceito foi formalizado em 2006 por Buciluǎ, Caruana e Niculescu-Mizil, ganhando destaque em 2015 quando Geoffrey Hinton e colaboradores da Google publicaram o artigo seminal sobre a técnica.
O processo funciona através de um modelo professor que gera respostas detalhadas, enquanto o modelo aluno aprende não apenas as respostas corretas, mas os padrões de raciocínio subjacentes. Em vez de aprender unicamente se uma resposta está certa ou errada, o aluno aprende com distribuições de probabilidade, o que a IBM descreve como “rótulos suaves”.
O processo divide-se em três fases: geração de dados pelo modelo professor, treino do modelo aluno para minimizar diferenças usando divergência KL, e ajuste fino para tarefas específicas.
Nos casos identificados pela Anthropic, as empresas miraram especificamente nas capacidades mais diferenciadas do Claude: raciocínio agêntico, uso de ferramentas e codificação. A MiniMax liderou com 13 milhões de interações focando em codificação agêntica, a Moonshot realizou mais de 3,4 milhões visando agentes de uso de computador, e a DeepSeek executou 150.000 interações focadas em melhorar sua lógica fundamental.
Plano de Ação da Casa Branca e Resposta Diplomática da China
O memorando da Casa Branca delineou quatro medidas principais: compartilhar informações com empresas de IA sobre táticas de atores estrangeiros, facilitar a coordenação do setor privado, desenvolver práticas recomendadas de detecção e mitigação, e explorar medidas para responsabilizar atores estrangeiros. Kratsios afirmou que a administração trabalharia com a indústria para decidir como conter esses abusos e responsabilizar os infratores. Autoridades americanas estimam que a extração ilícita está custando bilhões de dólares em lucros anuais aos laboratórios do Vale do Silício.
Em resposta, a embaixada chinesa em Washington rejeitou as acusações, chamando-as de “pura calúnia”. Liu Pengyu, porta-voz da embaixada, declarou que a China sempre esteve comprometida em promover o progresso científico e tecnológico através de cooperação e competição saudável. Guo Jiakun, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, classificou as alegações como “completamente infundadas” e pediu que os Estados Unidos respeitem os fatos e cessem a coerção tecnológica contra a China.
Em 23 de abril, o Comitê de Relações Exteriores da Câmara aprovou uma série de projetos de lei destinados a dificultar que a China alcance os EUA na corrida da IA. As tensões intensificam-se poucas semanas antes da visita oficial de Trump a Pequim, prevista para 13 a 15 de maio.
Conclusão
As acusações formalizadas pela Casa Branca evidenciam, essencialmente, uma nova dimensão na competição tecnológica entre Estados Unidos e China. Bilhões de dólares estão em jogo, particularmente quando consideramos os custos de desenvolvimento versus destilação ilícita. As medidas propostas pelo memorando representam uma tentativa coordenada de proteger a liderança americana em IA, dado que os riscos transcendem questões comerciais e alcançam a segurança nacional. Resta observar se essas ações conseguirão equilibrar proteção tecnológica com a diplomacia necessária entre as duas potências.